Conceito

Teoria Estrutural da Mente

Por Débora Maciel – psicanalista e psicopedagoga

O termo Estrutural, em psicanálise, define um conjunto de elementos que constituem uma relação organizada sendo interdependentes entre si. Sendo assim, uma estrutura é um sistema, de forma que uma mudança qualquer em um dos componentes provoca alteração nos demais. Diante disto, basicamente, a Teoria Estrutural (Id, Ego, Superego) – criada por Freud entre 1.920 e 1.923 – é um sistema, onde as pulsões do Id, as funções do Ego, os mandamentos do Superego e as realidades ambientais externas, agem entre si de forma continuada e indissociada, influenciando assim um ao outro.

ID

Antes de qualquer coisa, convém ressaltar que, pulsões, segundo Freud, “representa o conceito de algo que é limite entre o somático e o psíquico”, ou seja, uma fonte de excitação que estimula o organismo a partir de necessidades vitais interiores e o impele a executar a descarga desta excitação para um determinado alvo, constituindo quatro fatores inseparáveis: a fonte, a força, a finalidade.  O objeto e a natureza, esta “força energética”, só pode ser conhecida por meio de seus representantes psíquicos.

Houve, no início, uma primeira formulação de um conceito das pulsões essenciais, as pulsões do ego (autoconservação) e as pulsões sexuais (preservação da espécie). A primeira – pulsões do ego – representa um conjunto de necessidades e exigências ligadas às funções corporais, indispensáveis à conservação, desenvolvimento, crescimento e os auto-interesses do ego. A segunda – pulsões sexuais – situa-se no limite somatopsiquico, sendo que, a parte psíquica foi determinada como libido (“desejo”). Mais tarde, Freud descobriu que as pulsões que se referiam tanto ao ego como aos objetos externos não tinham natureza diferente e não cabia mais a distinção entre “pulsões do ego” e “pulsões sexuais”. A dualidade inicial que diferenciava as pulsões do “ego” e as “sexuais”, cedeu lugar a uma nova dualidade: pulsões de vida e pulsões de morte. Concluiu ainda que, o ego tinha uma energia própria e acima de tudo o ego é corporal.

A partir da nova dualidade, as pulsões de vida abrangiam as “pulsões sexuais” e as de “autopreservação”. A libido passou a ser conceituada como energia, e não mais como pulsão sexual, mas sim como pulsão de vida. As pulsões de morte tem como finalidade uma redução de toda a carga de tensão orgânica e psíquica, podendo permanecer dentro do indivíduo sob forma de angustias e, uma tendência à autodestruição, ou fora dele como pulsões destrutivas. Contudo pode-se dizer que, em indivíduos normais, e nos neuróticos, predomina a pulsão de vida, enquanto que nas psicoses, psicopatias, perversões, etc., predominam as pulsões de morte. Em resumo, a pulsão de vida visa juntar, ligar tudo aquilo que estiver separado no individuo e na espécie humana, enquanto a pulsão de morte, ao contrário, é a força de repulsão e rompimento, tende a destruir ligações.

O Id, como instancia psíquica, coincide com o inconsciente, é constituído pelas pulsões de vida e de morte, e, ao mesmo tempo, é um reservatório e uma fonte de energia psíquica. É regido pelo principio do prazer. Interage com as funções do ego e com a realidade exterior. Quase sempre entra em conflito com o superego e, raramente, estabelece alguma forma de aliança para seu próprio alívio.

EGO

Freud afirma que o ego desenvolve-se a partir do id, pela influencia do mundo externo e da necessidade de adaptação deste. Como a maior parte do mecanismo de defesa é inconsciente e o ego era considerado fonte e a sede dessas defesas, Freud notou que o ego não era sinônimo de consciente e nem se confundia com este, mas sim, que ele tinha raízes no inconsciente. O ego sendo a principal instância psíquica funciona como mediador, integrador e harmonizador entre as pulsões do id, as exigentes ameaças do superego e as demandas da realidade exterior.

Quanto à participação do Ego Consciente, cabe destacar algumas funções: a percepção, o pensamento, o conhecimento, o juízo crítico, a inteligência, a discriminação, a memória, a atenção, a capacidade para antecipação e postergação, a linguagem, a comunicação, a abstração, a síntese, a atividade motora.

No Ego Inconsciente são formadas as ansiedades ou angústias. Freud escreveu, entre outros, dois tipos de angústia: a angústia automática e a angústia-sinal. A primeira refere-se a um excesso de estímulos que o ego não consegue processar e, por isso, os reprime, onde surge, então, a ansiedade decorrente de um represamento de desejos, fantasias, sentimento, etc. (este tipo de ansiedade explica as “neuroses traumáticas” e as “neuroses atuais”). A “angústia-sinal”, por outro lado, acontece como sendo um “sinal” que o ego emite diante de uma ameaça, e só então irá processar a repressão.

É no ego inconsciente que surgem os Mecanismos de Defesa, que tem como finalidade a redução das tensões psíquicas internas, ou seja, das ansiedades. Estes mecanismos de defesa processam-se pelo ego e praticamente são inconscientes. Para Freud a defesa é a operação pela qual o ego exclui da consciência os conteúdos indesejáveis, protegendo o aparelho psíquico. O ego mobiliza estes mecanismos que dissimulam a percepção do perigo interno, em função de perigos reais ou imaginários localizados no mundo exterior. Entre os mecanismos de defesas destacam se: o recalque, a forma reativa, a regressão, a projeção, a racionalização, entre outros.

É bom destacar que os conceitos de “ego” e “self”, são distintas, com a intenção de se ter cuidado com isto, pois, o “ego”, como uma instância psíquica, é visto como apenas uma subestrutura da personalidade; enquanto o “self” é conceituado como a “imagem de si mesmo” e composto de estruturas, entre as quais estão não só o ego mais também o id, o superego e a imagem do corpo, ou seja, a personalidade total. Deve ser considerado que as funções do ego variam de acordo com as respectivas etapas evolutivas do desenvolvimento mental e emocional da criança.

SUPEREGO

O Superego é descrito como uma instância psíquica que se separou do ego, ou seja, encarregou-se das funções de um juiz representante da moral, legislador de leis e proibidor das transgressões dessas leis, e passou a condição de poder dominar ao próprio ego que lhe deu origem. Essa instância psíquica é entendida pelo significado da frase “o superego é o herdeiro do coplexo de Édipo”, o que significa que ele está constituído pelo precipitado de introjeções e identificações que a criança faz com aspetos parciais dos pais, com suas proibições, exigências, ameaças, mandamentos, padrões de conduta e o tipo de relacionamento desses pais entre si. Quando a criança supera, com mais ou menos êxito, a sua conflitiva edípica, ele encontra um solução para as angústias acompanhantes desse conflito, pela interiorização dos seus pais dentro de si, a criança se identifica com eles e internaliza as interdições deles. No menino, o complexo de edípico defronta-se com a ameaça de castração; enquanto na menina a angustia de castração diante da mãe que a empurra para o pai, assim forjando o complexo de Édipo e o consequente superego. Além do superego constitui-se como herdeiro do complexo de Édipo, ele contribui para a dissolução desse mesmo complexo através de interdições e ameaças. Ainda foi considerado por Freud que, o superego constitui uma estrutura que engloba três funções: “auto-observação”, “consciência moral” (formação de culpa) e a de “ideal” (“sentimento de inferioridade” quando o ideal não é atingido).

Se a formação do superego é devido a renuncia de desejos edipianos amorosos e hostis, ele também é reforçado por mais dois importantes fatores: A severidade do superego é voltada contra a própria criança, obrigando o psiquismo a se proteger com uma instancia fiscalizadora. E as posteriores influências e exigências sociais, morais, educacionais e culturais.

É imprescindível acrescentar que, “o superego da criança não se forma à imagem dos pais, mas sim à imagem do próprio superego desses pais, de modo que essa criança torna-se o representante da tradição, de todos os juízos de valor que subsistem, assim, através de gerações”, ou seja, o superego dos pais do paciente está identificado com o de seus próprios pais, isto inclui, na formação do superego os valores morais, os éticos, os ideais, os preconceitos e as crenças ditadas pela cultura na qual o sujeito esta inserido.

Contudo o superego também se caracteriza por ser quase totalmente de origem inconsciente, é coposto e ditado pelos objetos internos. É o grande gerador de culpas, com as consequentes angustias e medos, e a sua pressão excessiva no psiquismo é a maior responsável pelos quadros melancólicos e obsessivos graves.

Foi usado por Freud como sinônimos do superego o ego ideal e ideal do ego. No entanto a psicanálise atual mostra uma sutil diferença entre os conceitos específicos que cada um desses termos comporta, onde todos continuam sendo apêndice do superego clássico.

O “Ego Ideal” é constituído como o “herdeiro do narcisismo primário”, ele funciona no plano imaginário, alicerçado na fantasia onipotente, ilusória, própria da indiscriminação com o “outro”, em que “ter” é igual a “ser”, e vice-versa. O sujeito portador do ego ideal predominante no seu psiquismo está sempre à espera do máximo de si mesmo, além de nutrir ideais virtualmente nunca alcançáveis. O ego ideal costuma estar distante do ego real, mas o sujeito utiliza fortes recursos defensivos de “negação”; como por exemplo, o da renegação, o mais próprio dos estados narcísicos parciais (como nas perversões), ou o da forclusão, presentes nos estados narcísicos totais (psicoses). O sentimento predominante é o de humilhação perante as frustrações das expectativas do ego ideal.

No “Ideal do Ego”, o herdeiro deste ego é projetado nos pais, somando as aspirações e expectativas próprias deles (pais). No sujeito o ideal do ego é conjugado num tempo futuro e condicional:     “Eu deverei ser assim, senão…”. Este pode ser um importante fator estruturante do psiquismo, tanto nos primeiros movimentos identificatórios, como também quando ele está a serviço de um projeto de “um vir a ser”, e também, o sujeito constrói um “falso self” para corresponder a expectativas dos outros, ou a quadros fóbicos e narcisistas, quando a sua permanência é em grau exagerado. O sentimento predominante diante dos eventuais fracassos é o de vergonha.

 

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