Conceito

Transferência

Por Débora Maciel – psicanalista e psicopedagoga

Será exposto aqui três conceitos de transferência. A visão de transferência por Sigmund Freud, Donald Woods Winnicott e Melaine Klein.

A transferência pode estar presente em diversas situações, principalmente a encontramos em atendimentos terapêuticos, mas podemos encontrá-la em uma sala de aula, em uma aula particular, em grupos de estudos ou atendimentos terapêuticos, etc.

É possível perceber a presença de transferência quando, o paciente/analisando e/ou aluno transfere para o seu terapeuta e/ou professor a figura de uma pessoa próxima, podendo ser o pai, a mãe, o responsável, o qual tenha um papel importante na criação desta pessoa.

A transferência ajuda o paciente/analisando e/ou aluno no processo de cura, em caso de terapia e no processo de aprendizagem no caso do aluno.

 A Transferência engloba uma pluralidade de significados. Ela advém tanto da pessoa do analisando como do próprio analista. Diversos autores de distintas épocas e referenciais psicanalíticos conceituam formas especificas de situações transferenciais.

Conceitua-se este termo transferencial como um conjunto de todas as formas pelas quais os pacientes vivenciam com o psicanalista na experiência emocional da relação analítica, todas as representações que ele tem do seu próprio self, as relações objetais que habitam o seu psiquismo e os conteúdos psíquicos que estão organizados como fantasias inconscientes, como as respectivas distorções perceptivas, de modo a permitir interpretações do analista, as quais possibilitem a integração do presente com o passado, o imaginário como o real, o inconsciente com o consciente.

A transferência é um processo através do qual os desejos inconscientes se atualizam sobre determinados objetos ou pessoas, num certo tipo de relação estabelecida, eminentemente, no quadro da relação analítica.

O sujeito satisfaz as pulsões exercendo o amor, o desejo e a satisfação, as quais estão dispostas no decorrer de sua vida. Essas pulsões são constituídas como ideias libidinais infantis que, por não serem inteiramente capazes de mudar diante de experiências recentes, é transferida para uma nova pessoa que se aproxima, e neste caso o analista. A transferência se torna possível na analise principalmente enquanto disposição libidinal tornando possível a satisfação da necessidade do amor particular, levando o analista, a saber, a verdade escondida no inconsciente do paciente.

A transferência, de certo modo, é uma mudança nas atitudes do paciente com relação ao seu analista no curso do tratamento, essas mudanças envolvem intensos componentes emocionais e podem contribuir para melhoras significativas no estado do paciente.

 TRANSFERÊNCIA PARA SIGMUND FREUD

“uma transferência está presente no paciente desde o início do tratamento e, durante algum tempo, é o mais poderoso motivo de seu progresso” Sigmund Freud (1916-17).

Foi em “Estudos sobre a Histeria” (1.895) que Freud empregou pela primeira vez a transferência no sentido de uma forma de resistência, ou seja, como obstáculo à analise, a fim de evitar o acesso ao resíduo da sexualidade infantil que ainda persistia ligada às zonas erógenas. Então afirmou que a “transferência é o pior obstáculo que podemos encontrar” e, concluiu-a como, uma forma de um falso enlace do paciente com o terapeuta.

Mais tarde Freud postulou a transferência como impulsos e fantasias, passando a considerá-la uma inevitável necessidade. Então ele veio a reconhecer que a analise com uma paciente, chamada Dora, falhou porque ele não havia reconhecido e trabalhado suficientemente o que pode-se chamar de “transferência de vingança”.

os sintomas são precipitados de anteriores eventos amorosos que só podem dissolver-se à elevada temperatura da transferência e, portanto, transformar-se em outros produtos químicos”“Cinco Leituras sobre Psicanálise” Freud (1.910).

Em 1.912, Freud reforça que a transferência opera tal como num campo de batalha em que a vitória (a cura das neuroses), tem que ser conquistada, concluindo com clássica frase de que “não é possível vencer a alguém (o inimigo) in absentia ou in effigie” (se não há transferência não há analise). Em outras palavras quer-se dizer que, ela é um veículo através do qual o inconsciente se manifesta, veículo que coloca em ato, no agora (atual), o inconsciente, tornando presente o que estaria ausente. E logo mais tarde, em 1.915, ele classifica as transferências em positivas (amorosas) e negativas (sexuais), as sexuais ligadas às resistências.

Freud, em “Esquema de Psicanálise” (1.938), referiu-se à transferência como ambivalente e podendo ser uma fonte de sérios perigos e o mais poderoso instrumento da psicanálise.

Freud dividiu as transferências como sendo positivas e negativas, conforme seguem abaixo:

Transferência Positiva

As transferências positivas referem-se a todas as pulsões e derivados relativos à libido, além de os desejos eróticos sob forma de amor não sexual.

É importante acreditar que algumas formas de transferências positivas podem estar sendo negativas. Inclusive uma forma de positividade pode ser significado de um inconsciente engano transferencial-contrasnferencial sob uma estéril recíproca fascinação narcisística.

Uma transferência positiva é pela qual o paciente cumpre fielmente todas as combinações de assiduidade, pontualidade, verbalização, uso do divã, manifesta concordância com as interpretações, etc, onde encobre uma pseudocolaboração.

Transferência Negativa

Nesta transferência predominam as pulsões agressivas com seus inúmeros derivados como a inveja, ciúme, rivalidade, voracidade, ambição desmedida, algumas formas de destrutividade, as eróticas inclusivas, etc.

A transferência pode ser “negativa”, por exemplo, uma perspectiva adulta em ralação à educação de uma criança que quer romper com certas regras. Porém ela pode ser altamente “positiva” a partir de um vértice que permite propiciar ao paciente a criação de um espaço, no qual ele pode reexperimentar antigas experiências que foram mal entendidas e mal solucionadas pelos pais.

TRANSFERÊNCIA PARA DONALD WOODS WINNICOTT

Winnicott acredita que o paciente precisa conquistar um novo espaço para se relacionar com o analista, onde o analista primeiramente é para o analisando um objeto transicional, cuja a imagem estará distorcida pelas projeções e sentimentos de posse, e posteriormente ira se tornar um objeto real. Durante a análise, tanto a analista como o analisando estão se descobrindo e criando, por fim as descobertas levaram a criação de ambas as partes.

Durante a análise o analista tenta “atacar” seu analista e ele tenta sobreviver estes ataques, priorizando a construção neste paciente de um self real.

O paciente procura satisfazer suas necessidades e quando o analista não consegue, gera neste paciente uma decepção pelo fracasso do ambiente, porém Winnicott afirma que esse fracasso pode gerar muito mais do ódio no paciente, pode levar a uma aniquilação do seu self.

Para Winnicott a transferência é muito mais do que uma repetição de impulsos e defesas, o paciente não sente apensa desejos pelo analista, ele sente uma necessidade de satisfação que venha da parte do analista.

TRANSFERÊNCIA PARA MELANIE KLEIN

Melanie Klein via a transferência como uma reprodução de todos os primitivos objetos e relações objetais internalizadas no psiquismo do paciente, acompanhada das respectivas pulsões, fantasias inconscientes e ansiedades presentes nos pacientes.

Alguns seguidores de Melanie Klein destacam alguns aspectos relativos à transferência que descreverei abaixo.

  • Transferência Primitiva: é reproduzida com o analista as primitivas relações objetais, com as respectivas fantasias inconscientes arcaicas, ansiedade de aniquilamento e primitivos mecanismos de defesa.
  • Associação de ideias: afirma que as relações objetais primitivas se formaram antes da capacidade de o ego da criança poder fazer representações-palavras destas relações, no entanto, elas podem ser captadas pelo analista e virem a ser reconstruídas.
  • Objetos parciais: é quando nas transferências primitivas as relações objetais são configuradas com estes objetos parciais (seios, pênis, etc), isto acontece desde as primeiras sensações corporais, e decorrentes das angustias persecutórias e depressivas inerentes ao início do desenvolvimento infantil.
  • A transferência sempre está presente, não só nos momentos em que o paciente manifesta direta ou indiretamente em relação com o analista, mas sim de forma permanente e oculta.
  • Todo esse entendimento do fenômeno transferencial acarretou profundas modificações na forma e no conteúdo das interpretações do psicanalista.
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